quinta-feira, 30 de setembro de 2004

POUCA TERRA ENTRE TEJO E SADO

Era este o som mágico que ainda na minha infância os, então já raros, comboios a vapor faziam. Recordo-me de os ver passar ali no apeadeiro do Quebedo em Setúbal, com os seus azulejos azuis interrompendo o chilrear das andorinhas naqueles fins de tarde de Verão.

Admito-o com franqueza: sou um apaixonado por comboios e pelo caminho de ferro. Nunca, no meu perfeito juízo, trocarei uma saborosa viagem de comboio ao Porto pela claustrofóbica cabine de uma aeronave ou mesmo pela enfadonha autoestrada.

Paradoxalmente, este lado nostálgico do caminho de ferro, converte-o de transporte romântico do passado no transporte do futuro. Ele é o único que, na pequena e média distância (e até em alguns trajectos de longa distância, no caso da alta velocidade) pode garantir, a um tempo, velocidade, preservação do ambiente, segurança e qualidade no transporte de pessoas.

Vem tudo isto a propósito do início das ligações ferroviárias directas em via dupla, electrificada e completamente desnivelada entre Lisboa e Setúbal.

Trata-se da concretização de um velho sonho que conhece, finalmente, a luz do dia no dia 6 de Outubro.

Curiosamente o impacto que terá na vida dos cidadãos de Coina, da Quinta do Conde, do Pinhal Novo, de Palmela ou de Setúbal não parece ser, nem de perto, nem de longe, proporcional, à divulgação que este facto teve em alguma Comunicação Social aparentemente mais interessada em escurtinar os escândalos dos famosos ou os deslizes dos políticos.

Para além de desafogar (e de que modo) a vida de muitos cidadãos conferindo-lhes melhor qualidade de vida, esta ligação, pela primeira vez na história da nossa península possibilita, ao nível ferroviário, uma ligação estrutural no interior da mesma e desta em relação a Lisboa e da própria capital, directamente, para o Alentejo e o Algarve.

É talvez, desde a inauguração da AutoEuropa o investimento estruturante que foi efectuado na nossa península.

É pois com actos destes e não com mera retórica que se resolvem os problemas das populações.