sexta-feira, 19 de setembro de 2003

A Ponte 25 de Abril e a Teoria dos “Almoços Grátis”

Sentir-se-ão os verdadeiros utentes da Ponte 25 de Abril representados pela auto-intitulada “Associação de Utentes”? Estou bem em crer que não, mormente quando atrás de testas de ferro, à procura dos seus efémeros “quinze minutos de glória”, se escondem muitos figurões políticos da esquerda distrital setubalense mas pouca, para não dizer nenhuma, adesão dos verdadeiros utentes.

Sejamos claros: o que representará para os utentes da ponte a utópica abolição de portagens na ponte? Absolutamente nada!

Para o Erário Público, todavia, significará muitos milhões de contos por ano. Tal facto, tendo em conta a rigidez das contas públicas, as dificuldades orçamentais e o facto de em Portugal persistirem ainda carências a nível social é profundamente imoral.

Por maioria de razão, o argumento de que “não existe alternativa viária”, a ser aceite, implicaria também a abolição da portagem na travessia do Montijo e, à face da engenharia financeira assumida como contrapartida para a sua construção, boa parte do trabalho de todos os portugueses, do Minho às Flores, estaria afecto ao aumento inevitável do serviço da dívida referente à construção, bem como às dispendiosas operações de manutenção da ponte 25 de Abril.

Perdoem-me a ingenuidade, mas quando é que certas mentes iluminadas entendem que, em Economia, de facto, não existem almoços grátis? Alguém tem que os pagar e é um bom e justo princípio que sejam os comensais a faze-lo!

Esta luta, que tem quase nada de genuíno mas quase tudo de politicamente instrumentalizado, destina-se acima de tudo, a manter em lume brando uma contestação que, noutra conjuntura, colheu efectiva adesão popular.

Pensarão, os mentores da contestação, que a História se repetirá, só que, para além de do modesto mas triste espectáculo de folclore suburbano que ainda encontra algum eco na Comunicação Social (embora cada vez mais como simples fait-divers), nada mais tem acontecido a avaliar pelo completo, natural e eloquente alheamento dos representados. Face a isto, estes seus pseudo - representantes, investidos na “vanguarda da classe automobilística oprimida pela ditadura portageira” são como a Montanha que pariu um pequeno e inconsequente Rato.

Para além do anacronismo e da imoralidade desta artificial contestação há um profundo sentido anti ecológico na mesma. Numa época em que as preocupações ambientais são cada vez mais uma prioridade para todos nós e em que, paradoxalmente, não fica mais caro deslocarmo-nos até Lisboa de carro do que nos transportes colectivos (basta fazer as contas) a simples abolição da portagem representaria mais um incentivo incompreensível à opção pelo transporte individual.

A tendência actual, que já se iniciou, desde há anos, em países ambientalmente bem mais desenvolvidos do Norte da Europa, é precisamente a inversa à do sentido da contestação. De facto, aí onera-se a entrada de automóveis na grande cidade, pela implementação de portagens, pela restrição crescente e contínua da circulação no centro e pelo incentivo a uma mobilidade alternativa, menos poluente e ambientalmente sustentável.

Por cá, nos últimos anos e apesar dos actuais e esperançosos sinais de mudança, o caminho foi o inverso: exigiu-se a abolição de portagens, descapitalizou-se a EMEL (que como concessionária das receitas de estacionamento teria, pela sua efectiva cobrança, um efeito dissuasor, na entrada de viaturas em Lisboa), protelou-se a criação das “Autoridades Metropolitanas de Transportes” (que só agora, por firme vontade política, irão conhecer a luz do dia) organismo essencial para permitir que os transportes públicos colectivos tenham um serviço verdadeiramente capaz de dar resposta às dispares necessidades de mobilidade dos cidadãos nas duas áreas metropolitanas.

Em suma, com o suporte inequívoco da esquerda da margem sul, esta pseudo “Associação de Utentes da Ponte 25 de Abril” presta um péssimo serviço ao país e aos portugueses: quer empobrece-los, em nome de interesses políticos deploráveis e quer atacar o Ambiente ao promover o transporte individual.

Questiona-se então quem quer vender a Pátria por um punhado mensal de euros? Ninguém, excepto os suspeitos do costume alicerçados em interesses políticos obscuros.

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